Como se chegou a um sistema de contagem e registo do tempo tão pouco uniforme, com anos de duração diferente, uns com 365 dias e outros com 366, ditos bissextos, pois o número 366 contém dois algarismos "seis"? Também a duração desigual dos meses é outra característica estranha do nosso calendário.
Desde sempre que a sucessão dos dias e das noites se tornou o período astronómico natural para estabelecer um calendário.O dia está baseadono movimento aparente do Sol, de Este para Oeste. Contudo, o dia solar, tempo que decorre entre duas passagens meridianas consecutivas do Sol, varia ao longo do ano. Esta variação resulta da excentricidade da órbita da Terra (não é perfeitamente circular e, portanto, a velocidade da Terra é variável ao longo da órbita) e, também, da inclinação do eixo de rotação da Terra relativamente ao plano da sua órbita (eclíptica). Feitos os cálculos, é possível encontrar uma variação, ao longo do ano, entre 23 h 59 min 39 s e 24 h 00 min 30 s! O ano está relacionado com o tempo necessário para a Terra completar uma órbita à volta do Sol e é chamado ano solar ou trópico. Um ano solar tem 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 45,5 segundos. Finalmente, o mês tem origem no tempo decorrido entre duas luas cheias (valor também variável, em torno dos 29,5 dias) e a ideia de uma semana com 7 dias está, talvez, relacionada com a observação dos sete astros do nosso sistema solar mais visíveis no céu, como parecem indiciar os nomes atribuídos aos dias da semana no calendário romano: diessolis (dia do Sol), lunae (da Lua), Martis (de Marte), miercolis (de Mercúrio), juevis (de Júpiter), Viernis (de Vénus) e saturni (de Saturno).

Como, para o “tempo civil”, é imperioso que a duração dos dias se mantenha constante, este baseia-se no movimento de um corpo fictício, o Sol Médio, que se move com uma velocidade angular constante, igual à velocidade média do Sol. Assim, as variações da duração do “dia solar” relativamente ao “dia médio” determinam diferenças entre o “tempo solar” e o ”tempo civil”. As diferenças não se acumulam ao longo dos anos, porque o "tempo civil" foi estabelecido de tal forma que, durante um ciclo de 4 anos, com a inclusão de um ano bissexto, os tempos civil e solar se igualam praticamente (de facto é necessário, como veremos, um segundo ajuste).
O percursor direto e mais próximo do nosso atual calendário foi adotado por Júlio César no ano 46 a.C., seguindo as recomendações do astrónomo grego Sosígenes e uniformizando a contagem dos dias em todo o Império Romano. Esta reforma foi de tal monta que, pela necessidade de acertar o novo calendário, o próprio ano de adoção (46 a.C.) teve a duração de 445 dias!
Depois deste acerto, passou a vigorar, a partir de 45 a.C., o denominado calendário juliano, constituído por ciclos de quatro anos, com três comuns de 365 dias e um bissexto de 366 dias. A denominação e duração dos meses passou a ser a seguinte:

mesesr

 Este sistema usava uma distribuição alternada de 30 e 31 dias pelos vários meses, ficando Februarius com 29 dias nos anos comuns e 30 nos bissextos. Este calendário tinha, portanto, uma relativa ordenação e lógica, mas razões de outra ordem acabaram por desorganizar esta razoável distribuição. Pouco tempo depois da entrada em vigor do novo calendário, o poder romano, como homenagem à própria reforma de Júlio César, decidiu substituir o nome do sétimo mês, Quintilis, paraJulius. Também foi decidido alterar o nome do mês Sextilis, para Augustus, em homenagem ao imperador César Augusto. Paraque o mês de César Augusto não tivesse menos dias do que o de Júlio César, passou a ter também 31 dias, sendo retirado um dia ao mês de Februarius, que passou aos nossos 28 dias nos anos comuns e 29 nos bissextos. Esta alteração levou, ainda, à reorganização dos meses seguintes, de forma a não haver demasiados meses consecutivos com 31 dias. O resultado obtido é precisamente a estranha distribuição do nosso calendário atual.
No entanto, não seria, ainda, este o calendário que perduraria, embora a distribuição dos meses e dias já não mais mudasse. O problema estava no facto de que o ano médio (em cada ciclo de 4 anos) do calendário juliano se situava nos 365,25 dias, o que é cerca de 11 min 14 s mais longo do que o ano trópico. A acumulação desta diferença ao longo dos anos representa um dia em 128 anos e cerca de três dias em 400 anos. Parecendo quase irrelevante esta diferença, na verdade, com a passagem dos séculos, começou a acumular-se de forma significativa. Vai ser o Papa Gregório XIII, em 1582, a recomendar e estabelecer uma última reforma do calendário juliano, que se tornará no adotado atualmente – o calendário gregoriano. Nesse momento, já existia um desfasamento de 10 dias e,por isso, manda publicar a bula Inter Gravíssimas, que estabelece que o dia imediato à quinta-feira, 4 de outubro, fosse designado por sexta-feira 15 de outubro. Como se vê, apesar da supressão dos dias, manteve-se intacto o ciclo semanal. Para evitar novos desvios, foi estabelecido, igualmente, que os anos seculares só seriam bissextos se fossem divisíveis por 400. Suprimir-se-iam, assim, 3 dias em cada 400 anos, razão pela qual o ano 1600 foi bissexto, mas não foram os anos de 1700, 1800 e 1900, que teriam sido segundo a regra juliana.
A duração do ano no calendário gregoriano é, contudo, superior em 27s à do ano trópico. A acumulação desta diferença, ao longo do tempo, representará um dia em cada 3000 anos. Por conseguinte, fica uma nova reforma para daqui a um bom par de milhares de anos: a humanidade terá tempo, ainda!
O calendário gregoriano foi adotado, no próprio ano de 1582, em vários países europeus, entre os quais Portugal, e em muitos outros, logo nos anos seguintes. Nos países protestantes, a resistência à reforma foi mais longa e, por exemplo, o Reino Unido só o adota no ano de 1752.
Os países com religião predominante ortodoxa conservaram, mesmo, o calendário juliano até ao princípio deste século. Na Grécia, por exemplo, só se adotou a reforma gregoriana em 1923 e na Turquia em 1926.
O calendário gregoriano, embora de uso cada vez mais generalizado, não é o único sistema de contagem utilizado, ainda hoje, pelos diferentes povos. Por exemplo, o calendário chinês, com início da sua contagem que remonta ao ano de 2697 a. C., é constituído por cinco ciclos de doze anos governados por animais distintos: Rato, Touro, Tigre, Lebre, Dragão, Cobra, Cavalo, Ovelha, Macaco, Galo, Cão e Porco. Já no calendário hebraico os meses são baseados nos ciclos da Lua, enquanto o ano é adaptado regularmente de acordo com o ciclo solar, sendo composto alternadamente por anos de 12 ou 13 meses. E o calendário islâmico ou hegírico é composto por doze meses de 29 ou 30 dias ao longo de um ano com 354 ou 355 dias. A contagem do tempo deste calendário começa com a Hégira - a fuga de Maomé de Meca para Medina, em 16 de julho de 622. O mês começa quando o primeiro crescente visível da Lua aparece pela primeira vez após o pôr-do-sol. Uma vez que o calendário islâmico é cerca de 11 dias mais curto que o calendário solar, os feriados muçulmanos acabam por circular por todas as estações.